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YogaProjection

Mantenha o Eu, o Yoga adapta-se. ∞ Keep the Self, Yoga adapts.

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Mantenha o Eu, o Yoga adapta-se. ∞ Keep the Self, Yoga adapts.

Yoga no dia-a-dia #1

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Ontem tive o meu primeiro acidente.

Sim, uma casualidade não essencial (como tão bem define o Priberam), com direito a fila de trânsito, buzinadelas, pessoas aborrecidas a sair do carro e a gesticular e, claro, polícia.

O carro que circulava à minha frente abriu pisca à esquerda e parou e eu parei atrás dele. A um metro, se tanto. E eis que, vejo acenderem-se as luzes de marcha atrás e as minhas pernas a ficarem em gelatina. Gesticulo, cruzo o olhar com os dois homens que conversam no passeio em jeito de ‘Ajudem, vai bater!’, abro a boca e arqueio as sobrancelhas, meto a marcha atrás, mas as pernas não respondem. Já está.

Inspiro e Expiro.

Obrigo as pernas a saírem do carro e dirijo-me à Senhora.

‘Então, minha Senhora?’, e vejo o olho esquerdo do meu carro bem partido.

‘Então o quê? Você não viu que eu ia estacionar? Tem de me guardar distância de segurança!’

Uiiii… pensei eu, vou ter problemas aqui. Dirijo-me aos dois homens do passeio:

‘Bom dia, desculpem incomodar. Não se vão embora, por favor, preciso….’

‘Ah mas nós não vimos nada! Estávamos aqui a conversar, só ouvimos o barulho’.

Inspiro e Expiro.

Volto à Senhora.

‘Olhe, nós estamos nervosas, acabámos de bater. Vamos conversar e tentar compreender o que se passou.’

‘Nervosa? Eu não estou nada nervosa. O que se passou é que você me bateu por trás porque não me guardou a distância de segurança mesmo eu tendo sinalizado a manobra!’.

Pronto, despoleta-se uma resposta neurológica a esta ameaça e o meu sistema nervoso simpático – os nervos que controlam a nossa resposta ‘fight-or-flight’ [1] – inunda o meu corpo de adrenalina e cortisol. Sintomas: a respiração encurta, o ritmo cardíaco aumenta, os músculos retesam-se e a atenção focaliza.  

Inspiro e Expiro.

‘Escute, a Senhora bateu-me em marcha atrás. Eu estava parada quando você me bateu’.

‘Quer chamar a polícia?’.

E eu saio, por instantes, daquela cena e observo.

Eu tenho um Smart que podia estar mais limpo, é um facto. Estou de fato de treino, tenho cara de miúda e assumi que estava nervosa. A minha interlocutora tem um BMW, está na casa dos 60 e bastante bem vestida. Tem a voz posicionada, é altiva, está nervosa porque o consigo sentir, mas não o demonstra nem por um momento. É rija.

O meu carro está bem partido, o dela... não tem nada, claro.

Naquele momento, tenho quase a certeza que a responsabilidade é dela e estou bem consciente que não tenho dinheiro para pagar o arranjo… ‘E se não for? E agora estes carros todos, ficam aqui até a polícia chegar? E se a culpa for minha e eu estiver aqui a empatar a vida a esta gente toda? E se ela mentir e disser que eu é que lhe bati por trás?’

Inspiro e Expiro.

‘Ok, chame então a polícia’.

‘Chame você’.

Credo, esta Senhora é difícil!

‘Ok, qual é o número, eu não sou daqui’.

‘Também não sei’.

112… ‘Bom dia, peço imensa desculpa por vos estar a ocupar a linha (nesta altura entro em modo ‘Desculpem por respirar’). Tive um acidente, mas está tudo bem, não há feridos, só precisava que mandassem um carro da polícia ao local, pois não nos estamos a conseguir entender. (…). Muito obrigada’.

Ligo para a minha aluna das 10h. ‘Desculpa, não consigo dar aula, (…)’

‘Onde estás? Vou já ter contigo’.

Wow.

Inspiro e Expiro e começo a activar o meu sistema nervoso parassimpático, o sistema que contrabalança o sistema simpático, restabelecendo o corpo num estado de calma. Sintomas: diminuição da pressão arterial, respiração mais lenta e compassada, diminuição da adrenalina.

Com a ajuda de um senhor, a quem me fui chegando para tentar saber quem é que ia ter a responsabilidade daquilo, ajudámos os carros que estavam ali presos, a sair de marcha atrás. Depois, lá coloquei o triângulo e esperei a polícia.

O resto é o resto.

Yoga aqui, encontrei nas profundas e inúmeras inspirações e expirações que fiz, consciente de qual era o sistema nervoso que estava a dominar as minhas acções e reacções e tomando, para mim, o controlo destas. O Pranayama, é o quarto limbo do Yoga segundo Pantajali e, de forma sucinta, é o controlo da energia vital (prana) por meio da respiração. O pranayama fortalece o sistema respiratório e acalma o sistema nervoso, favorecendo a concentração.

Yoga aqui, vi na prontidão de um ser humano que me conhece há pouco mais de três meses. União. Apoio. Mão nas costas. Preciso sim, e foi bom ouvir ‘Onde estás? Vou já ter contigo’.

Adversidades e contratempos existirão sempre. É a forma como nos posicionamos, que nos distingue e ontem, o Yoga teve em mim, um papel fundamental na manutenção do meu centro inabalável. Que nunca se confunda pacificidade com fraqueza.

 

[1] Também conhecida como ‘resposta aguda ao stress’, a expressão ‘fight-or-flight’ foi primeiramente descrita por Walter Cannom em 1920 como a teoria que explica que os animais reagem às ameaças com uma descarga geral do sistema nervoso simpático. Uma das traduções possíveis é ‘lutar ou fugir’.

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